#548

Ontem foi o Dia do Livro, e pensei em escrever alguma coisa sobre isso, mas acabou ficando pra hoje.
Pra ser sincera, eu nem estava me lembrando da data até começar a receber e-mails promocionais. Não sou boa com datas, é bom registrar.
Mas eis que no Dia do Livro eu concluí a minha leitura do feriado, 1984, de George Orwell.
Sim, estou surfando na onda das distopias, menos por causa da moda despertada pelos recentes acontecimentos políticos, e mais porque algumas delas são clássicos da literatura mundial e já estavam na minha lista, caso tanto de O Conto da Aia quanto de 1984.
Distopias costumam impressionar normalmente por colocar diante dos nossos olhos possibilidades terríveis, por escancarar o pior lado dos seres humanos, por explorar nossa vulnerabilidade.
1984, além de ser uma das mais respeitadas distopias já escritas, foi lançada em 1949.
Ainda que, numa escala de tempo histórica, possa ser considerada uma obra recente, já se vão quase setenta anos.
E não foram quaisquer setenta anos, foram setenta anos de significativas mudanças tecnológicas e comportamentais, setenta anos efervescentes.
Não é possível ler 1984, ou ler algum livro de Asimov da década de 1950, e não ficar fascinado com o que essas mentes privilegiadas foram capazes de criar, porque eles viam muito à frente. E não apenas eram visionários, mas tinham um domínio narrativo invejável, você sente a inteligência em ação.
Quando eu leio coisas assim, eu me recolho à minha insignificância, porque sei que, por mais que eu queira, estou muito longe desse nível de habilidade.
Mas, voltando à questão das distopias, e refletindo sobre essas possibilidades sombrias que elas apresentam, alguns dos meus pensamentos foram de gratidão. Explico:
Me sinto grata por ser mulher nesta época e neste local, por mais imperfeitos que eles sejam. Porque, apesar de todos os problemas e dificuldades, eu não tive que viver de maneira subserviente. Pelo menos nunca de uma maneira subserviente que resvalasse na indignidade. Subservientes, mal ou bem, todos somos, dentro do sistema capitalista. Mas eu pude viver minha vida até agora bastante de acordo com a minha vontade, tomando decisões grandes e pequenas. Eu decido com quem me relacionar, o que estudar, o que vestir, pra onde viajar, o que ler, o que comprar. Eu decido.
Quando eu penso que, até bem pouco tempo atrás, e mesmo hoje, em pleno 2017, em várias partes do mundo, mulheres são cerceadas do direito de decidir, seja sobre casamento, estudos, carreira, vestuário, prazer, etc., eu agradeço pela sorte que tive. Porque eu não tenho a menor ideia de como seria viver de outro jeito. E não é só pela questão da cultura, mas pela questão da personalidade. Porque eu não tenho a mais vaga vocação pra subserviência. Todas as células do meu corpo são pequenos soldados da vontade e da teimosia.
E quando se fala em distopias, basicamente estamos falando de controle. Todo tipo de controle, controle sobre tudo. Mas principalmente sobre sexo e linguagem. Não por acaso sobre sexo e linguagem.
Entre as semelhanças de O Conto da Aia e 1984, estão esses dois pontos. A condenação do sexo não reprodutivo e a proibição dos livros (Lembram das grandes fogueiras que os nazistas fizeram na Europa?). Em 1984 ainda há o agravante da redução da língua a um vocabulário mínimo que torne praticamente impossível criticar o regime.
Essas leituras também fizeram que eu me sentisse grata por coisas mais prosaicas. Tipo um banho quente, uma boa refeição, uma roupa limpa. E isso a gente sabe que falta pra muitas pessoas reais, no dia a dia, mas a ideia de que em algum momento a escassez seja uma regra ainda mais concreta pra quase todo mundo é aterrorizante. A gente aprende a se distanciar, a banalizar certas coisas, e muitas vezes a ficção tem o poder de nos sacudir que os jornais não alcançam, que às vezes nem o nosso olhar na rua alcança mais. Realidades inventadas em que uma laranja, ou um punhado de açúcar ou café são preciosidades nos atingem mais do que a panela vazia e a fome concreta dos que vivem à margem, que vemos sem ver. E aí quando você se dá conta da sorte que é poder comer, e comer algo que tem uma aparência decente e um gosto agradável, e dormir num lugar que não fede, parece que alguma coisa se recalibra dentro de você.
Porque essa é a verdade, a gente esquece a sorte que tem.
E a gente pode até dizer que não é sorte, porque pra isso existe estudo, trabalho e etc., mas a verdade é que tem um montão de sorte nas equações das nossas vidas, desde a família e o lugar em que a gente nasce, até o ponto em que a gente está, e a gente pode até fechar os olhos pra isso, mas não muda o fato de que, sim, tivemos sorte.
Li que Margaret Atwood disse que tudo que ela colocou em O Conto da Aia já aconteceu em algum momento da História, e que muita gente se comporta como se por já ter acontecido não fosse mais acontecer, quando a própria História mostra que atrocidades se repetem.
Enquanto eu lia 1984, escrito ao final da Segunda Guerra, em tempos de Holocausto, bombas atômicas, toda aquela herança sinistra de destruição e tragédia, eu me perguntava como depois de tudo aquilo, e depois de um livro como aquele, desenhando aquele tipo de futuro, como a ressaca moral não foi forte o suficiente pra impedir todas as tragédias anunciadas que vieram a seguir?
Como depois da Segunda Guerra ainda houve fôlego, estômago, qualquer coisa, pra promover a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã, as ditaduras latino-americanas, os conflitos no Oriente Médio e a ascensão do Estado Islâmico, como esses últimos setenta anos ainda testemunharam tanta desumanidade?
Orwell antecipa algumas respostas em diálogos dos seus personagens em 1984:

“Só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro.”

ou ainda

“O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder.”

Eu poderia me perder em uma infinidade de digressões, mas vou ficando por aqui.
E, contra todas as probabilidades, não vou ficando por aqui derrubada pelo pessimismo.
Não só pela consciência do tanto de sorte que tenho. Mas porque ainda estamos aqui. E isso por si só é uma vitória contra as probabilidades.

#547

Preciso falar, porque quando a gente fica assim, repleta de pensamentos e impressões e vislumbres, a gente precisa de algum jeito extravasar, liberar espaço pra que as conexões possam ser feitas, e quem sabe, talvez, atingir algum entendimento.

Pra começar eu preciso falar que estou relativamente frustrada. Durante duas semanas me dediquei a um projeto, tentando conclui-lo até a data de ontem. Consegui fechar uma versão dele na sexta-feira. Porém, não rendeu como eu esperava. Estava bom, mas não o suficiente. Faltava alguma coisa. Eu queria dizer que estava pronto, mas a esta altura eu já aprendi que não adianta fingir pra mim mesma, porque os outros não vão ter essa delicadeza. Então eu tentei elaborar o que faltava a tempo de cumprir a deadline, e digamos que eu cheguei bem perto de fazer isso, mas no fim eu achei que não, ainda não estava bom o bastante, não estava lapidado, não estava maduro, não estava no ponto. A gente precisa saber fazer a autocrítica. Não colocar a ansiedade na frente do profissionalismo. Precisa respeitar o ofício. Ainda não foi desta vez pra essa oportunidade. Outras virão. E aí sim ele vai estar pronto pra ser lido, esmiuçado, questionado, avaliado.

Eu preciso dizer também que, embora eu tenha me dedicado muito ao projeto nesse período, na última semana eu fui engolfada por uma urgência de ler. Tanto que mencionei isso nos posts anteriores. E o resultado disso é que depois de A Hora da Estrela (Clarice Lispector) e O Tribunal da Quinta-feira (Michel Laub), eu li Indignação (Philip Roth) e O Conto da Aia (Margaret Atwood). São todos livros curtos, mas mesmo assim, é como se eu tivesse sentido uma fome que só a leitura pudesse aplacar, e uma coisa fosse puxando a outra. Pra mim faz muito sentido ler algo do Philip Roth praticamente junto de algo do Michel Laub, porque eu acho que as obras desses autores dialogam, eu vejo Laub na linhagem literária de Roth, apesar das suas marcas literárias próprias. E há tanto tempo eu venho querendo ler O Conto da Aia, eu entrei no universo de Atwood no ano passado, com O Assassino Cego, mas desde antes O Conto da Aia me provocava tanta curiosidade, e quando eu li o mais recente perfil de Atwood na New Yorker, eu sabia que não tinha escolha, não podia adiar mais essa leitura.

E agora são tantas coisas fervilhando na minha cabeça, que preciso descarregar. Vamos pela ordem das leituras.

Sobre O Tribunal da Quinta-feira – como o título já diz, o livro fala sobre julgamentos. Não aqueles julgamentos oficiais, mas os julgamentos cotidianos que fazemos dos outros e de nós mesmos. Da facilidade com que julgamos o tempo inteiro. De como estamos prontos pra julgar a qualquer momento, diante de informações parciais, as guilhotinas sempre afiadas. A inclinação sádica pra humilhar. E de como tudo isso pode ganhar maiores proporções quando a natureza coloca um vírus oportunista pra circular no mesmo espaço em que tanta gente confusa se encontra e se desencontra. E de como isso ainda pode piorar quando algumas dessas pessoas tem fetiches secretos. O Tribunal da Quinta-feira é uma história sobre como uma série de eventos se conecta até culminar numa situação limite, no que se pode chamar de “assassinato de reputação”. Mas também é uma história sobre invasão de privacidade, vingança, aparências, rigidez ideológica, armadilhas do politicamente correto. O narrador protagonista conta como se tornou um réu, enquanto explica como outros personagens também compartilham do mesmo banco. Ele também faz seu autojulgamento. E tudo sob o peso de um veredicto que pode ser fatal. Eu gosto muito de como Laub escreve. O estilo assertivo, sintético, justo, a obra do tamanho da história, sem barriga, sem rodeios, sem esticar por esticar, sem prejudicar a história tentando fazer algo maior. Um escritor que reconhece que a história tem o tamanho que tem, seja ele qual for. E que isso não significa ser superficial, muito pelo contrário. É mais difícil ser complexo e sofisticado sendo sucinto. É isso que vejo nele que associo ao Roth também. Essa precisão. Eu terminei de ler esse livro com vontade de sair emprestando aos amigos. Eu sei que é um livro provocador e que a experiência literária varia de pessoa pra pessoa, nem todo livro agrada todo mundo, ainda mais quando é provocador como este. Mas eu acho tão válidas as reflexões que ele propõe. Só consolidou a excelente impressão que eu tinha do autor. Até prova em contrário, na minha opinião, Michel Laub é o melhor escritor brasileiro contemporâneo.

Sobre Indignação – mais uma incursão no território de Philip Roth, aos seus personagens que parecem sempre incapazes de fugir de um destino já determinado, por mais que tentem. No caso deste livro, um jovem fugindo do controle do pai superprotetor, neurótico com a possibilidade do filho único morrer cedo. Uma neurose justificada pelo contexto de um país que se engajava pela terceira vez numa guerra em menos de cinquenta anos. O rapaz não aguenta o comportamento dominador do pai e decide ir estudar numa faculdade distante, com uma cultura muito diferente daquela de onde cresceu. Ele tem o firme objetivo de ir bem nos estudos e, caso seja convocado pra guerra, ir com uma patente que permita ocupar postos mais seguros e escapar das previsões trágicas do pai. Mas em pouco tempo ele começa a reagir de maneira perigosa a tudo que lhe acontece, e a logo constatar o que o pai lhe dizia, sobre como pequenas decisões podem ter grandes consequências. Fizeram uma adaptação desse livro para o cinema que ainda não vi. Fiquei curiosa e quero ver pra comparar.

Sobre O Conto da Aia – o livro foi lançado em 1985, mas é uma distopia que em tempos como os nossos não parece tão impossível. A história é o relato de uma Aia, num contexto em que Aias são “barrigas de aluguel” numa sociedade estéril e com um rígido código de segurança. Gradualmente descobrimos como as coisas chegaram a esse ponto. Gilead, uma nação que corresponde geograficamente aos Estados Unidos, sofre um atentado que mata seu presidente e seus congressistas, em tese de autoria de uma nação muçulmana inimiga. Diante do caos estabelecido, um grupo do qual pouco se sabe instaura um regime de exceção. O novo regime, de cunho político e religioso conservador, inicialmente confisca as contas bancárias das mulheres. Em seguida ele dispensa todas as mulheres de posições de trabalho de classe média. Depois ele torna ilegais quaisquer casamentos que não sejam os primeiros. Por fim, numa sociedade com a saúde já precarizada, em que a taxa de natalidade caiu drasticamente, ele proíbe todo tipo de estímulo e atividade sexual que não seja regulada pelo Estado. Mulheres solteiras ou em qualquer condição que não a de primeiras esposas são separadas entre as que não podem mais procriar – que passam a ser chamadas de Não-mulheres e vivem em condições sub-humanas ou são logo assassinadas – e as que ainda são consideradas aptas, que, a depender de uma série de outros fatores, podem ser subdivididas entre Econoesposas (dadas em casamento a oficiais de baixa patente), Marthas (empregadas domésticas das famílias mais abastadas) e as Aias (que servem como barriga de aluguel para casais da elite que não conseguem ter filhos). As Aias recebem treinamento especial para desempenhar essa atividade. Elas usam roupas que as cobrem inteiramente, inclusive uma espécie de gorro. Não podem falar com ninguém, exceto com as pessoas autorizadas por seus senhores. Sua identidade é apagada de tal forma que não é permitido dizer seus nomes, elas passam a ser denominadas de acordo com os nomes de seus senhores temporários: Ofwarren, Ofglen, Offred. Há tantos pormenores na história que eu quase teria que escrever um outro livro pra comentar. Mas o importante é dizer o seguinte: como mulher, ler esse livro é como levar uma surra psicológica. Porque é tudo muito absurdo, mas quantas coisas absurdas já vimos e veremos? Por isso mesmo, apesar do incômodo, ou melhor, por causa do incômodo, acho que esse livro deveria ser usado nas escolas de ensino médio, lido e discutido. Porque é bizarro, é grotesco, e porque não podemos esquecer, não podemos achar que nossos direitos estão garantidos pra sempre – nunca estão – e uma realidade dessas é inadmissível. Eu queria que todas as mulheres lessem esse livro. Infelizmente, eu sei que isso não vai acontecer. Mas, felizmente, eu sei que muita gente vai conhecer a história, porque semana que vem estreia uma série adaptada do livro. Apesar das alterações que eu já sei que fizeram e que podem comprometer um pouco do impacto da história, de maneira geral eu acredito que pode ser um bom trabalho, e trazer várias das reflexões necessárias abordadas por Atwood. Pelo trailer estou com boas expectativas. Veremos.

#546

Ocorre que comecei o ano lendo A Divina Comédia. E estava entusiasmada com a leitura, embora não seja o tipo de livro que permita uma leitura rápida, tanto pela estrutura do texto em si, quanto pelo quantidade de referências. São muitas notas de rodapé, é uma leitura que exige atenção redobrada.
Apesar disso, como falei, eu estava empolgada, lendo um pouco a cada dia, com a intenção de completar sua leitura antes de pular pra outra coisa. Leituras mais densas não chegam a ser um problema pra mim, é apenas uma questão de estar na vibe certa pra empreitada. Porém, calhou de eu terminar a parte do Inferno e meu pai falecer dois dias depois.
E aí eu não consegui voltar ao livro. Perdi a vibe. É claro que eu pretendo concluir a leitura, mas por enquanto ainda não consegui voltar. Na verdade eu fiquei umas boas semanas meio distante dos livros, mas por uma convergência de motivos diversos. Li três livros técnicos de roteiro nesse tempo, mas priorizei outras coisas. Escrever, principalmente.
Isso não significa que eu deixei de pensar em livros. De procurar livros. De me interessar por livros. De comprar livros. Eu acho que há muito tempo não passa um mês em que eu não compre livros. É, no plural mesmo. Um nunca é suficiente.
Só do mês passado pra cá foi quase uma dezena. A edição comemorativa de Forrest Gump, o Livro do Cinema da coleção da editora Globo, 1984, A Hora da Estrela, O Tribunal da Quinta-feira, Histórias da Teledramaturgia (2 volumes), A Rosa Tatuada.
Sem contar as duas revistas da coleção Lendas da DC da Mulher Maravilha. (Sim, ainda curto HQs também, não tenho preconceitos! E a WW é a WW, eu não resisto.)
E as negociações pra adquirir uma edição conjunta de A Rosa Tatuada, Caminho Real e A Descida de Orfeu, porque Tennessee Williams é um vício sem culpa. (Um sonho: ler a obra completa do dramaturgo.)
Quanto à leitura, voltei à ficção no domingo, com A Hora da Estrela, como já comentei. E de segunda pra terça praticamente engoli O Tribunal da Quinta-feira. Sobre esse livro vou ter que escrever um post específico, porque ele merece. Em breve, porque estou tentando terminar um roteiro de longa ainda esta semana. Mas adianto que estou muito excitada pra falar desse livro do Michel Laub.
E assim seguimos, entre páginas e páginas e páginas, simplesmente porque é assim, não tem como ser diferente.

Irresistíveis

#545

Ontem eu reli A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Eu nem lembro quanto tempo faz que o li pela primeira vez, mas certamente faz bastante tempo, talvez mais de vinte anos.
Estou trabalhando numa história que tem uma protagonista com um quê de Macabéa, por isso quis reler o livro.
E é muito interessante como um livro tão pequeno pode ser tão carregado de sentidos.
Em A Hora da Estrela, Clarice não apenas retrata personagens que conhecemos com uma sofrida beleza, como fala da beleza e da dor presentes no próprio ofício de escrever.
Segundo consta, a autora escreveu A Hora da Estrela pouco antes de sua morte, de certa forma como uma reflexão sobre o que sabia já estar por vir.
Clarice, disfarçada no narrador da história – um escritor, porque, segundo ele, “escritora mulher pode lacrimejar piegas” -, afirma que escrever é uma carpintaria.
Meu pai era carpinteiro, e eu nunca pensei que, de algum jeito, o que eu fazia com as palavras era o mesmo que ele fazia com a madeira. Nunca nos imaginei tão próximos. Mas talvez eu seja mais parecida com ele do que eu pensava.
E, como uma leitora que escreve, quanto mais eu leio, mais portas eu abro. Não apenas pra fora, mas pra dentro de mim. Um universo de pequenas revelações.

“Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos.”

“Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados.”

“Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”

“Pelo menos o futuro tinha a vantagem de não ser o presente, sempre há um melhor para o ruim.”

“Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. Viver é um soco no estômago.”

Clarice Lispector, em A Hora da Estrela

#544

Eu não sei explicar a pessoa que eu sou hoje.
Eu sei que há mil explicações, mas não sei dizer exatamente a combinação que me fez chegar aqui, aos 35 anos, do jeito que eu estou.
E se vocês me perguntarem “Que jeito?” eu não sei se vou saber explicar direito também.
Esse jeito. O meu jeito ser. O meu jeito de ver o mundo.
Eu já falei várias vezes sobre o que eu esperava da vida, como eu achei que seria, etc….
Mas, a cada dia, eu tenho a sensação de que era pra ser exatamente como foi. Cada pedaço.
Não é que eu esteja 100% bem resolvida com tudo. Longe disso. Mas eu acho que, quando olho pra minha vida até aqui, eu me enxergo nela, todos os meus ângulos.
A intuição. A criatividade. A responsabilidade. O comprometimento. A ambição. A coragem. A carência. A impulsividade. A insegurança. A paixão. O orgulho. A resiliência. A inquietação. A teimosia. A constância. A esperança.
A lealdade.
A lealdade à minha verdade, aos princípios que sempre me nortearam.
A minha vida podia ter sido diferente, mas da maneira como é ela reflete bem quem eu sou e os meus aprendizados. Reflete aquilo em mim que nunca mudou, as fraquezas que eu tive que dominar e o que em mim acabou mudando. E me parece que as duas últimas, ao fim e ao cabo, aconteceram por causa da primeira. Se eu cresci e se eu mudei, foi por influência do que eu tenho de mais verdadeiro e essencial.
Eu quis muitas coisas, e não consegui várias delas, e eu poderia chegar aqui e ficar me lamentando por isso. Mas eu não sinto vontade de me lamentar. Não mais.
Porque eu tenho sido leal a mim mesma, e se as coisas que eu não consegui foram o preço que eu paguei por isso, é uma questão que está apaziguada dentro de mim.
Demorou tanto, eu sofri tanto até realmente entender isso, mas depois que a ficha caiu, foi libertador.
Se hoje eu sou como sou, se a sucessão de coisas terríveis acontecendo ao redor me afetam mas não me derrubam, é porque eu descobri esse lugar de paz em mim. Eu posso não estar protegida de tudo, mas ao menos eu estou em paz com a minha consciência. E isso, em tempos como estes, já é muita coisa.

#542

Os últimos dias têm sido dias de trabalho.
Não de trabalho-trabalho, mas de trabalho-projetos.
Porque é isso, quem tem TCC pra entregar, planos pra empresa recém-fundada, e um monte de gente morando no interior da cabeça, não pode ser dar ao luxo de tirar férias-férias.
Durante esses dias eu escrevi mais algumas páginas do meu livro, desenvolvi o argumento de um longa, comecei a rascunhar meu TCC, revisei um roteiro de longa já finalizado e identifiquei o que preciso fazer pra deixá-lo fechadinho, e estou montando uma bíblia pra uma série procedural.
Ou seja, só fazendo umas coisinhas básicas, me revezando entre pelo menos quatro histórias diferentes. (É a isso que me refiro quando digo que é muita gente morando numa cabeça só, ok? É meio esquizofrênico, não tem como não ser.)
Eu podia estar viajando (mentira, tenho que economizar meus dinheiros), eu podia estar passeando (isso eu podia, a cidade tem alternativas), mas eu tô aqui, dando forma a personagens e aos mundos em que eles habitam.
E eu não estou reclamando, porque isso é o que eu mais gosto de fazer. Dias assim me dão um vislumbre da vida que eu quero ter.
Eu consegui realmente me desligar do meu trabalho-ganha pão por esses dias. Tenho acompanhado algumas notícias, mas confesso que consegui colocar um belo distanciamento entre esses dias de “folga” e a minha rotina normal.
Eu ainda não estou com a vida ganha e não posso abandonar o que me sustenta, mas eu estou tão confiante de que as coisas podem mudar. Acho que nunca estive tão confiante assim. Será Marte na minha décima casa? Não sei, mas poucas vezes na vida eu me senti tão capaz, tão forte.
Tenho deadlines pela frente, o ano já tem uma agenda e vou ter que me desdobrar mais ainda pra dar conta de tudo que está previsto.
Estou inquieta, trabalhando pra que tudo dê certo, mas não estou com medo. Sei que não vamos ganhar todas, mas acredito que temos chance de construir um caminho. E isso já vale tanto. Essa sensação é tão boa, que eu queria poder colocar nuns potinhos e distribuir por aí.

#541

Já é madrugada e eu devia estar dormindo, mas estou de férias, logo posso ficar acordada ruminando coisas (como se eu não fizesse isso em madrugadas normais sem a desculpa conveniente das férias…).
Mas seguindo: o fato é que tive uma epifania hoje.
Conversando com uma amiga de infância alguns dias atrás, ela me falou uma coisa que muitos amigos me falam: que eu devia colocar mais a cara no mundo, que eu devia aproveitar melhor as oportunidades de conhecer novas pessoas, que eu devia dar mais chances pra novos relacionamentos.
E eu dei a ela a minha resposta mais ou menos padrão: que eu fico cansada só de pensar no trabalho que dá conhecer novas pessoas, que eu conquistei uma tranquilidade que tenho medo de perder. E isso é verdade. Mas não é a resposta completa.
E aí as pessoas preenchem a lacuna com aquela ideia genérica: você não se abre porque tem medo de sofrer de novo.
E isso também faz parte da resposta, mas ainda não é o núcleo da minha defesa.
E pensando hoje, eu vi que poderia dar muitas respostas sobre por que eu não me sinto motivada a buscar/tentar novos relacionamentos, mas que nenhuma dessas respostas era realmente boa.
Só que logo depois me caiu a ficha, com a sutileza de uma bigorna.
O principal motivo de eu não me arriscar a me envolver afetivamente de novo não é o medo de sofrer, não é o medo de ter o meu coração partido.
Esse risco eu suporto correr, mesmo já sabendo o quanto de dor pode causar.
Mas o principal motivo pra eu não querer me envolver com ninguém, pra eu sequer me dispor sinceramente a conhecer outras pessoas, é o medo de perder a minha criatividade, de ficar bloqueada pra sempre, de perder essa característica que faz parte de mim desde que me entendo por gente, e que é quase sinônimo da minha identidade.
E eu tenho medo porque isso é o que eu tenho de mais valioso, e em um momento da minha vida, por conta de um relacionamento desafortunado, eu perdi e não sabia se um dia seria capaz de recuperar. E sem isso eu não sabia mais quem eu era.
E foi só quando eu recuperei que me senti eu mesma de novo, e foi só quando recuperei que eu me senti realmente viva de novo.
Eu não sei o que fazer a esse respeito. Acho que vou ter que ruminar essa questão um pouco mais.
Mas acho que ter consciência disso é algo positivo. Pelo menos eu tenho mais clareza das minhas atitudes.
Eu tenho vivido um período tão fértil de ideias e de projetos, me sentido mais criativa do que nunca, no auge do meu potencial, como se eu estivesse prestes a decolar…
E isso é tão importante pra mim, isso sempre foi tão importante pra mim, sempre foi a coisa mais importante pra mim…
Eu podia ter tido uma vida muito diferente (não sei se melhor, mas diferente), mas eu fiz as escolhas que fiz, eu saí lá do interior de onde eu saí, pra perseguir um objetivo claro que tinha a ver com esse dom criativo com o qual eu nasci.
E me apaixonar, e amar, e amar errado, amar a pessoa errada, me tirou do eixo, me desviou do caminho, drenou as minhas forças, soterrou o meu dom. O amor me atropelou.
E esse é o risco que eu não quero correr de novo. Eu não quero correr o risco de sair do caminho que eu sei que é o meu caminho certo, eu não quero ter que tirar uma tonelada de pedras de cima da minha criatividade.
O meu dom é o que existe de melhor em mim, é a coisa mais bonita e preciosa e válida que existe neste meu invólucro, nesta minha encarnação; e ao contrário do que as lendas populares dizem, o amor não foi bom pra mim. Ele me ensinou coisas, mas não teve o impacto positivo que costuma ser atribuído a ele.
Durante boa parte da minha vida eu achei que pudesse ter as duas coisas. Que o amor pudesse chegar e apenas fazer o dom brilhar mais. Hoje, eu não sei. Talvez possa, em alguns casos. Mas nem sempre.
E, na dúvida, entre um e outro, eu fico com o meu dom.

#540

O carnaval vai se despedindo e eu vou constatando que a única coisa permanente nesta vida é mesmo a mudança…
Quanto mais o tempo passa, mais eu percebo quanto tenho mudado.
Vontades que pareciam inabaláveis quase desapareceram.
Coisas que me enchiam os olhos, perderam a graça, e algumas até viraram fontes de tédio.
E cada vez acho mais natural que seja mesmo assim, que a gente enjoe e vá mudando no meio do caminho.
Nosso paladar muda, nossos sentimentos mudam, nossos pensamentos mudam também.
Não estamos condenados a sermos sempre do mesmo jeito.
E isso não é necessariamente ruim. Nem bom. É apenas um fato da vida.

*****
AVISO: Senta que lá vem textão. Quem estiver sem saco, melhor nem tentar ler isso. É uma reflexão que fui desdobrando e acabou ficando enorme. Mas vou deixar assim, porque acho válido pensar sobre essas coisas.

No domingo eu estava acompanhando a premiação do Oscar.
Eu sempre gostei de ver a cerimônia, mas apenas nos últimos anos tenho acompanhado com mais atenção.
Muita gente desdenha do Oscar, é mais cool nesses tempos elogiar os Festivais de Cannes, Sundance ou Berlim.
Eu acho que não dá pra desprezar a importância da Academia. Como não dá pra desprezar a indústria cinematográfica norte-americana, que por mais que todo mundo critique, todo mundo consome e, vamos ser francos, em sua maioria gosta, nem que seja um guilty pleasure.
Pra muita gente, falar mal de Hollywood virou uma espécie de hobby. Com certeza há muito o que se criticar sobre ela. Mas ela também tem oferecido ao mundo muita coisa relevante ao longo desse quase um século. E ela não seria tão bem-sucedida se, de alguma maneira, ela não tivesse conseguido atingir uma linguagem universal, que toca pessoas em toda a parte. Existe um mérito inegável no que a indústria de cinema norte-americana foi capaz de criar. E dentro desse pacote está o Oscar, que praticamente coexiste com o surgimento e evolução dessa indústria.
O prêmio deste ano foi o 89º. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi fundada em 1927. O primeiro Oscar foi referente ao ano de 1929 e foi transmitido pelo rádio em 1930. Vamos lembrar aqui que a TV só chegou na década de 1950. A cerimônia do Oscar só começou a ser transmitida pela TV em 1953.
Só a título de comparação, o Festival de Cannes foi criado em 1946. O BAFTA foi fundado em 1947. O Festival de Berlim surgiu em 1951. O Festival de Sundance teve início em 1978, e o Spirit Awards foi fundado em 1984.
Ou seja, existe aí um pioneirismo que não pode ser desconsiderado. Eu acho que a gente pode criticar qualquer coisa, mas precisa saber reconhecer o que se deve. E, independentemente de motivações e erros, Hollywood levou o cinema a sério desde o começo.
Eu fiz todo esse percurso pra chegar ao que aconteceu na última cerimônia.
Eu estava declaradamente torcendo pra La La Land. Mas o meu top 3 eram La La Land, Hidden Figures e Moonlight; logo, pra mim, qualquer deles ganhando seria merecido.
Mas a gafe daquela noite foi muito constrangedora. Foi muito desagradável.
É uma situação que poderia ser divertida num filme, mas que, como vida real, é uma falha horrível.
E eu não estou dizendo isso porque eu estava torcendo pra La La Land. Eu estou dizendo isso porque um filme é o produto do trabalho de muita gente. Muita gente rala nos bastidores pra levantar um filme, do menor e mais barato ao mais caro. É muita gente envolvida, muita gente que se dedica, que é apaixonada pelo que faz. É tipo escola de samba. Às vezes tem muito dinheiro investido, outras nem tanto, mas sempre tem muita gente. Muita gente querendo fazer alguma coisa em que acredita. Da concepção ao lançamento de um longa-metragem, normalmente são anos de trabalho.
Ganhar ou perder faz parte. Mas ter esse tipo de decepção, estar numa situação absurda dessas é muito desrespeitoso. É muito desrespeitoso com todas essas pessoas que trabalham pra fazer um filme sair do papel. Ninguém merece passar por uma saia justa dessas e ter o tapete tirado dos seus pés de uma maneira tão descuidada.
Não foi bonito o produtor de La La Land puxando o cartão de Melhor Filme da mão do Warren Beatty pra comprovar o erro. Não foi educado. Mas eu nem posso imaginar como deve ter sido ter que lidar com essa situação improvável, com o desapontamento, e ainda ter que manter algum equilíbrio pra minimizar os danos. Acho que ele ainda teve mais presença de espírito do que muitos teriam em seu lugar.
Outras coisas também me deixaram pensativa. Deu pra perceber um clima estranho durante toda a premiação. Enquanto os premiados por outros filmes faziam discursos mais emocionais e políticos, os ganhadores por La La Land não comemoraram tão entusiasticamente e fizeram discursos mais convencionais e superficiais. Algumas pessoas têm criticado a equipe de La La Land por sua postura pouco política nas premiações. Eu concordo parcialmente com a crítica. Eu acho que sim, a equipe do filme seguiu uma linha de evitar a politização dos discursos, embora eu me lembre do Chazelle dizendo algo mais político em uma das premiações, se não me engano na da associação dos diretores. Mas eu acho que além disso, a equipe de La La Land percebeu, como seria impossível não perceber, que muita gente transformou o filme numa espécie de “inimigo” a ser vencido. Eu apenas vi uma menção sobre a postura de Samuel L. Jackson ao entregar o prêmio de Melhor Canção Original a La La Land. Na minha opinião, a postura dele foi totalmente inadequada. Ele pode não concordar com o prêmio ou mesmo com a indicação, mas como apresentador, ele deveria parecer imparcial. Mas não, ele demonstrou toda a sua contrariedade no anúncio do vencedor. É um tipo de atitude que eu não esperava de um ator da estatura dele. E é diferente da postura da Brie Larson com o Casey Affleck (em função das denúncias contra ele). Pra começar, antes da premiação ele já tinha dito que só viu vinte minutos de La La Land, claramente externando uma antipatia quanto ao filme. E na matéria que fala da entrega do prêmio, a autora diz que “ele foi obrigado a entregar um Oscar pra La La Land” e “dar a estatueta a três homens brancos que ganharam um prêmio por fazer jazz”.
Essas e outras questões ficaram martelando na minha cabeça. Na verdade, como criadora, como escritora e como roteirista, certas questões me batem diretamente. Muito tem sido dito sobre inclusão, representatividade, e essa discussão é sem dúvida necessária e válida. Mas eu me pergunto até que ponto essas demandas podem e devem influenciar o processo de criação. Porque vejam bem, todo processo de criação tem um começo, e no caso de um filme, esse começo é o roteiro. Eu tenho preocupação com essas demandas, e acho que elas devem ser mantidas à vista de quem está criando, mas eu não acho que um criador tem que estar submetido a elas. A criação de uma história, o desenho de uma jornada, é um processo que precisa ser livre. Nós defendemos tantas liberdades, mas colocamos regras para o processo criativo? Eu não vejo como um processo criativo possa ser genuinamente criativo sem ser livre. Qualquer tipo de arte escrita só tem sentido se puder ser absolutamente livre (exceto em caso de ser discriminatória ou ser inversa aos princípios de humanidade). E nessa liberdade eu incluo que nem toda história precisa ter um tema profundo, e que nem toda história tem que ter diversidade de representação. E que um escritor pode falar de biologia sem ser um biólogo, e que um compositor branco pode criar um samba bonito. Eu acho que há pessoas e grupos radicalizando posições que não deveriam ser radicalizadas. É possível levantar bandeiras sem se tornar intolerante. Aliás, parece uma tremenda contradição lutar por igualdade agindo de maneira a desqualificar tudo que não segue o padrão que você acredita e a tolher a liberdade dos outros.
E o que eu sinto que aconteceu com La La Land foi isso. Houve um processo de politização e de radicalização em torno dele. Muito por conta do clima político atual, mas a disputa ganhou contornos agressivos, numa linha que me parece bastante equivocada. Pegaram um filme bem realizado em todos os aspectos, que é um entretenimento de boa qualidade, que trouxe bons momentos pra milhares de espectadores, que foi uma experiência singular pra outros tantos, e o reduziram a “um filme sem profundidade” e “sem diversidade”. Ao “filme dos caras brancos fazendo jazz”. Mais do que isso, o reduziram a um filme “reacionário”. La La Land foi colocado como inimigo direto de Moonlight, numa vibe Republicanos versus Democratas, Coxinhas versus Mortadelas, Fluminense versus Flamengo.
Eu me pergunto: Então só são válidos os filmes que tratam de temas profundos? Todo filme que não tem um protagonista não branco é necessariamente reacionário? Tudo que é conservador é reacionário? Tudo que não é revolucionário é reacionário? É um insulto aos negros um compositor branco criar uma trilha sonora de jazz? Se o John Legend fizesse o papel de Sebastian, os críticos julgariam o filme da mesma forma?
Um crítico que eu respeito muito foi um dos que detonaram La La Land, acusando o filme de superficialidade. Ele foi categórico ao fazer campanha pra Moonlight, dizendo quão importante seria premiar um filme sobre tolerância no atual momento político. E ele acrescentou o seguinte: há uma tendência da Academia, nos últimos anos, de dividir os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor. Como Melhor Filme ganha o mais realista ou que tem mais profundidade, o de Melhor Diretor é dado àquele com o melhor conjunto da obra, como entretenimento. Vamos observar:

2012 – Melhor Filme: Argo / Melhor Diretor: Ang Lee – A vida de Pi
2013 – Melhor Filme: Doze Anos de Escravidão / Melhor Diretor: Alfonso Cuarón – Gravidade
2014 – Melhor Filme: Birdman / Melhor Diretor: Alejandro Iñárritu – Birdman
2015 – Melhor Filme: Spotlight / Melhor Diretor: Alejandro Iñárritu – O Regresso

Somando a esses o resultado deste ano, parece que o ele disse faz algum sentido.
Como eu disse acima, concordo com as demandas por maior diversidade, e eu acho que sim, há momentos em que certas decisões precisam levar o contexto político mais em conta. Não dá pra ignorar o papel da indústria cultural na promoção de cidadania e não podemos fechar os olhos pra determinadas situações. Alguns momentos pedem mais atitude, mais posicionamento.
Só acho que precisa existir cuidado, reflexão, pra não corrermos o risco de levantar outros muros que podem empobrecer a cena cultural. Eu não acredito em estabelecer regras pra manifestações artísticas. Qualquer tipo de arte é em si mesmo um tipo de manifesto contra barreiras, uma espécie de grito de liberdade. Quando determinadas demandas são colocadas como um tipo de imposição, eu me sinto resistente. Me sinto desrespeitada na minha liberdade de expressão. Não é assim que eu acho que as coisas devem ser colocadas, e não é assim que eu acredito que certos problemas serão resolvidos.
Aí existem diferenças, obviamente, sobre a natureza do trabalho que você está fazendo. Como um profissional, em particular no meio audiovisual, nem sempre você vai trabalhar a partir da sua própria matriz artística. Muitas vezes você vai trabalhar sob encomenda, vai trabalhar em equipe, vai trabalhar em cima de ideias de outras pessoas. E sim, é preciso ser profissional e escrever de acordo com o que for demandado, é preciso se adaptar. Mas até nesse caso eu acho que o escritor/roteirista precisa saber até onde é possível ir sem se violentar.
Eu sei que esse texto, cheio de “acredito na diversidade, mas”, “acho que política é importante, mas”, pode soar reacionário também. Do tipo “façam a revolução que quiserem, mas não no meu quintal”. E eu me pergunto se estou sendo. Acho que sou capaz de pensar criticamente e de fazer uma autoanálise pouco tendenciosa. Eu não posso garantir, é muito difícil garantir esse tipo de coisa, mas realmente não me sinto reacionária. Não me sinto alheia ou indiferente aos assuntos importantes, às questões de gênero, raça, classe social. Em muito do que eu escrevo naturalmente existe diversidade, existe abordagem de temas sérios. Outras vezes eu exercito isso. Só que eu não gosto de pensar nisso como uma camisa de força. Até porque, na maioria das vezes, no meu processo criativo, normalmente eu vou dando espaço pros personagens que vão me rasgando de dentro pra fora, eu estou à serviço deles, e não o contrário. Então cada universo tem uma cara, as ideias são muito diferentes umas das outras, e elas são construídas em cima das suas próprias necessidades.
Entre um produto criativo sob encomenda, e um produto criativo pessoal e original, eu tendo a acreditar mais no segundo, porque pra mim ele é mais genuíno e mais orgânico.
E tem o ponto da politização exagerada do entretenimento. O entretenimento, como a arte, é um fim em si mesmo. Ele pode ter nuances ideológicas, mas não é uma obrigação. Subordinar o entretenimento à política, ou criar uma divisão no cinema entre entretenimento e política é polarizar algo que não deveria ser polarizado. É confundir abertura e democracia com outro tipo de simplificação danosa. Já acontece no Brasil, o mercado nacional está praticamente polarizado entre comédias e filmes sociológicos. E o que existe entre eles, ou o que poderia existir entre eles? E todos os tipos de histórias possíveis dentro do espectro criativo? Não merecem ter espaço? Não devem ser contadas? Queremos diversidade, mas ela precisa caber dentro de uma ideologia?
É claro que toda essa análise, sobre uma premiação de cinema, pode parecer um desperdício de tempo e sinapses. Mas, independentemente dessas questões maiores ainda estarem muito distantes de mim, como alguém com pretensões no audiovisual, estou atenta e levo a sério o que vejo acontecer no mercado.
Imagino como deve ser chato ser rotulado, eu ficaria bem aborrecida se alguém me etiquetasse como “uma roteirista branca”, “sem profundidade”, e/ou “reacionária”, porque alguma das minhas histórias não se encaixa na caixinha vigente do politicamente correto. Como se tudo que eu tenho estudado, que eu tenho feito, como se a minha voz e todo esse trabalho que é prazer mas que também é dor e sacrifício pudessem ser desmerecidos e reduzidos a esses rótulos.
E, embora eu me preocupe com tudo isso, e talvez porque eu me preocupo com tudo isso, uma coisa fica cada vez mais clara pra mim: o foco do criador deve estar na criação. É nela que ele tem que se realizar, na criação em si mesma e não externamente. Contar a história que quiser. Criar o que quiser criar.
Produção, público, prêmios, tudo isso deve ser maravilhoso de alcançar. Mas isso é pra poucos, e muitas vezes é efêmero. E te pendura um alvo no peito.
Por isso a melhor realização que a gente pode ter, a mais completa, é mesmo a realização de ter criado o que queria.
O resto é consequência, o resto é adereço. O resto é dilema, porque em cada subjetividade está inscrita uma dose de razão.

#539

O Oscar vem chegando e, como boa curiosa e apaixonada por cinema, fui fazer a maratona pra ver os filmes indicados e poder opinar sobre eles. E é a minha opinião que vocês irão encontrar abaixo, lembrando que opinião é direito e não veredicto. Seguem então as minhas impressões sobre os nove concorrentes ao prêmio principal:

FENCES / UM LIMITE ENTRE NÓS – O filme é sobre uma família negra americana ainda na época da segregação (década de 1950), mas os maiores conflitos da trama ocorrem no âmbito familiar. Na verdade o filme é sobre essas relações familiares, mas não deixa de ser sobre todo o contexto social que impacta nessas relações. Sem dúvida é um filme que tem uma importância intrínseca, e de fato Denzel Washington e Viola Davis entregam belas atuações, o problema do filme – se é que se pode dizer que seja um problema – é que não é um filme que vá ser abraçado por um grande público, porque ele é um filme pra quem gosta de História, de Literatura, mas não tanto pra quem gosta de Cinema. Fazer um filme de época já é complicado por natureza, pela questão da linguagem, do comportamento do outro período que está sendo retratado. Fazer um drama, de época, centrado em conflitos familiares que carregam todo um peso de questões sociais sérias como racismo, pobreza e guerra, é uma ousadia pra poucos. Vale todas as indicações, mas como cinema não acredito que vá ter longo alcance porque passa longe do que a essência primitiva do cinema significa: entretenimento. É um bom filme, porém suas questões, embora sejam do interesse de todos, falam mais alto a um público bastante segmentado. Apesar disso, acho que Mr. Washington tem boas chances de levar mais uma estatueta, merecidamente. É praticamente certo que Viola Davis também ganhe, mas, embora ela esteja muito bem, a atuação de Naomie Harris em Moonlight foi mais impactante pra mim.

HELL OR HIGH WATER / A QUALQUER CUSTO – O filme não é ruim, mas está longe de ser um concorrente de peso. Parece que o bonequinho d’O Globo aplaudiu de pé, o que só me faz suspeitar ainda mais do bonequinho. O filme é uma espécie de Bonnie & Clyde misturado com Thelma & Louise, só que em vez de amantes ou amigos, a dupla de foras da lei/fugitivos da vez são dois irmãos, que roubam bancos naquela parte mais estéril e empobrecida do território americano – o Texas. O roteiro até que é razoável, usando uma ideia Robin Hoodiana como gatilho, mas nada surpreendente. O papel que deu a Jeff Bridges uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante é praticamente o mesmo papel que deu a Michael Shannon a sua indicação à mesma categoria. O homem da lei do interior, aquela instituição americana, que por vezes faz justiça com as próprias mãos. Tudo bem derivativo. O filme é bem realizado, bem montado, com uma trilha sonora apropriada, mas não tem nada de extraordinário. Nenhuma atuação que realmente se destaque, nada que a gente já não tenha visto antes e melhor. Os personagens não são desenhados bem o suficiente pra que a gente se importe de fato com qualquer um deles. Achei bem forçada essa indicação.

LION / UMA JORNADA PARA CASA – É uma das biopics do ano. A história é bem interessante, sobre um garoto indiano que vai parar em Calcutá, sendo que ele fala apenas o dialeto da sua região, e não bengali, a língua oficial em Calcutá. Ele tenta voltar pra casa, mas é muito criança e, além da barreira da língua, ele não tem referências corretas e suficientes da sua cidade de origem ou mesmo da sua família, pra poder ser restituído. Após vários percalços ele acaba sendo adotado por uma família australiana e, muito tempo depois, já adulto, decide procurar sua família biológica. Praticamente durante a primeira metade do filme o protagonista é criança, e na segunda, adulto. O filme é muito bom, ao estilo de outros filmes como Quem quer ser um milionário? As atuações são excelentes (o garotinho Sunny Pawar também deveria ter sido indicado, ele é ótimo!) – tanto Dev Patel quanto Nicole Kidman entregam belas performances, na medida certa, sem exageros. Gostei muito desse filme, é realmente um dos melhores do ano.

MANCHESTER BY THE SEA / MANCHESTER À BEIRA-MAR – Primeira indicação de uma produção da Amazon a um prêmio da Academia. É um bom filme. É um drama sobre perdas. Me lembrou Ordinary People (1980). É um filme que depende muito das atuações e do trabalho da direção, porque é basicamente disso que se trata um drama, especialmente um drama como este, sobre perdas, sobre pessoas quebradas. Os conflitos são essencialmente internos, se passam dentro dos personagens, e o que vemos é apenas o que ultrapassa a superfície, só a ponta do iceberg. Fizeram toda uma campanha sobre a atuação do Casey Affleck, e sim, ele está bastante bem como o protagonista. Mas me chamou mais atenção a performance de Lucas Hedges, um dos indicados a Melhor Ator Coadjuvante. Já a indicação de Michelle Williams eu achei forçada. Ela está bem, mas não chega a ser caso de indicação. É um filme bem realizado, mas não é um dos meus preferidos.

HACKSAW RIDGE / ATÉ O ÚLTIMO HOMEM – O filme que está sendo chamado de “a redenção de Mel Gibson”. É o épico de guerra do ano. O filme conta a história de um jovem do interior, Desmond Doss, que tem uma relação conturbada com o pai (que sofre de estresse pós-traumático da Primeira Guerra), e que acaba se alistando para servir na Segunda Guerra. Porém o rapaz acredita que sua missão na guerra é a de salvar vidas, como um médico de campanha, e enfrenta resistência dentro do seu pelotão por descumprir ordens. Não vou aqui dar mais spoilers do que esses, mas o filme segue o padrão Mel Gibson: um herói/salvador, uma questão religiosa, cenas de combate, exploração visual dos horrores da guerra – ou seja: nada novo. O que me surpreendeu positivamente foi o Andrew Garfield. Não é um ator que eu colocaria normalmente no primeiro time, mas ele está perfeito no papel do protagonista. No geral as atuações são muito boas. O roteiro é bem desenvolvido, e embora algumas vezes pareça bem fantasioso, foi baseado numa história real. Tem um furo que eu achei estranho (irmão do protagonista), mas que não chega a comprometer o filme. E é aquilo, Hacksaw Ridge tem DNA cinematográfico, é um tipo de história que tem cenas pra tela grande, uma jornada do herói bem tradicional. Se é a redenção do Mel Gibson eu não sei, mas que ele fez um bom trabalho dentro do gênero, isso não dá pra negar.

ARRIVAL / A CHEGADA – Entra na cota da ficção científica do ano. Também tem um plot bem desenvolvido, a força do filme está justamente na história e na forma como ela é contada, costurando tempos diferentes. Porém o tom que deram ao filme não colabora com a história. Por mais que eu tenha gostado do enredo, senti falta de alguma coisa, de um pouco mais de emoção. Talvez tenha faltado dar um pouco mais para a protagonista. Amy Adams faz um bom trabalho, mas falta alguma coisa pra nos importarmos mais com a sua Louise. A sensação que eu tenho é que ficou blasé. Não que eu ache que toda ficção científica tenha que ser sempre num tom acima, ou num ritmo acelerado. Mas em A Chegada tudo é muito monocórdio, em tons pastéis, etéreo, sem graça. Ok, também é uma história sobre perdas, mas é necessário saber equilibrar isso sutilmente. Talvez na pretensão de fugir dos clichês do gênero, o diretor tenha deixado o filme numa frequência menor do que deveria. Por isso me surpreende bastante a indicação de Denis Villeneuve para Melhor Diretor. O filme no conjunto é bom, mas podia ter sido melhor.

MOONLIGHT / SOB A LUZ DO LUAR – Talvez o filme com o plot mais original do ano. Garoto negro e gay é acolhido por traficante que o trata como filho. Digamos que é o “filme independente” do ano. Eu gostei muito de Moonlight porque ele não apenas trata do espaço normalmente reservado ao negro na sociedade, seja na americana, seja na brasileira, como também subverte o estereótipo do traficante, do dono de boca, seja dando a ele uma nuance mais sensível e conflitada, no caso do papel de Mahershala Ali, ou sendo usado como uma armadura, no caso do protagonista. Moonlight tem um elenco extremamente competente e afinado: Mahershala Ali, Naomie Harris, Trevante Rhodes (o que é esta criatura linda?), Ashton Sanders, André Holland… É um dos meus filmes preferidos, um trabalho conduzido em sua maior parte com grande sensibilidade. Apenas uma coisa me incomodou no filme: um pudor excessivo. Eu acho que o filme pedia uma ousadia a mais que tiveram medo de entregar. E isso enfraquece um pouco o resultado final. Inclusive eu peguei o roteiro disponibilizado pelo estúdio e constatei que aliviaram na filmagem. Uma pena. Mesmo assim, segue um dos melhores candidatos do ano.

HIDDEN FIGURES / ESTRELAS ALÉM DO TEMPO – Outra biopic, mas aquela que conseguiu me emocionar, me balançar do começo ao fim. A história é incrível, e tudo no filme funciona: roteiro, elenco, trilha sonora… As três atrizes, Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe estão no tom certo, completamente afinadas, maravilhosas. E que delícia ver o Kevin Costner voltar num filme assim, o Jim Parsons fazendo a versão mais antipática do Sheldon Cooper ever, a Kirsten Dunst com aquele ar arrogante que lhe cai tão bem, e o Mahershala Ali sendo gostoso pra variar. Hidden Figures é inspirador, e tão necessário quanto Fences. Principalmente porque, se Fences mostra uma realidade triste e que precisa ser exposta, Hidden Figures mostra que talento independe de cor da pele, de gênero, e fala sobre resiliência pra enfrentar condições adversas. De certa forma, os dois filmes se complementam. Como eu sou otimista por natureza e adoro narrativas de superação, que influenciam a minha própria vida, achei o filme sensacional. Seria o meu favorito, se meu coração já não estivesse definitivamente ocupado.

LA LA LAND / CANTANDO ESTAÇÕES – Vou começar dizendo o seguinte: vou fazer descaradamente campanha pró-La La Land. Desde que eu vi o trailer do filme eu fiquei encantada e muito curiosa. Mas eu também tive muito receio que aquela magia do trailer se quebrasse durante o filme, porque isso acontece muito. Até mesmo os piores filmes conseguem juntar algumas boas cenas e fazer um trailer que venda uma impressão de que o filme é bom. Mas tinha alguma coisa ali, já no trailer, uma visão de cinema peculiar. E já tinha o nome do Chazelle, o que ele conseguiu fazer em Whiplash (foi indicado a 5 categorias e ganhou 3 Oscars com o seu primeiro longa, aos 30 anos). Eu li muitas críticas, mas eu sempre leio muitas críticas, e, sinceramente, elas expandem minha capacidade de enxergar coisas nos filmes, mas elas não definem a minha opinião sobre eles. Tem muito mais em jogo aí. Eu fui ver o filme e, quando acabou, eu sabia que eu tinha acabado de ver alguma coisa que se destacaria na História do Cinema. Porque não tinha como isso não acontecer. E eu vou explicar o que me fez sentir isso. La La Land é uma tapeçaria de referências, e isso ficou bastante claro pra todo mundo que conhece ou que pesquise um pouco sobre cinema. Mas não é só isso. Vários filmes fazem referências, cinema é uma arte cheia de metalinguagem. O diferencial de La La Land são os detalhes. Existe um apuro nos detalhes desse filme que raramente se vê no cinema contemporâneo. E que é muito justificado pela personalidade um tanto obsessiva do diretor. E que também é muito justificado pela capacidade do Chazelle de reunir uma equipe qualificada e de comunicar a essas pessoas exatamente o que ele está construindo. E nisso ele leva vantagem sobre outros diretores porque quando você é o roteirista E o diretor, essa imagem é muito mais clara. O tom que Chazelle quis para o filme está em cada pedacinho, no papel de parede do quarto de Mia, na pintura da parede do lado de fora do restaurante em que Sebastian toca músicas natalinas, até na escolha de atores que podem cantar suficientemente bem, mas que não tem grandes vozes, porque aí você revela fragilidade, humanidade mesmo. A história de La La Land não é uma grande história, não é A história. Ele não tem um plot forte, não é um filme “High Concept”. Mas, na sua simplicidade, no seu escapismo, como muitos dizem, ele é Cinema com C maiúsculo. Porque ele tem um conjunto impecável da maioria dos aspectos que são avaliados num filme, e tudo coerente dentro da sua proposta. E quando a Academia avalia o Melhor Filme, o que ela está avaliando é isso. O Melhor Filme não é necessariamente o que tem o plot mais forte, ou a melhor atuação do protagonista. Pra isso existem as categorias específicas. O Melhor Filme é o que representa o que todo filme é, por definição: um trabalho de arte construído em equipe. É muito difícil um filme se destacar em tantas categorias, ter uma unidade tão inequívoca, ter tão nítida a coerência de todos os elementos que o compõem. E quando perguntaram ao Chazelle como ele se sentia com tantas indicações, o que ele disse foi que estava muito feliz por toda a equipe, porque eles trabalharam num esquema semelhante ao dos antigos estúdios, em que enquanto alguém ensaiava uma coreografia numa sala, na sala ao lado o outro treinava piano, na sala em frente a figurinista testava as roupas, na outra sala os músicos trabalhavam nas canções. Tudo pertinho, tudo integrado. Podem discutir muita coisa, mas La La Land é cinema, no sentido de ser um espetáculo visual. Já seria um filme inesquecível apenas pela cena de abertura. E é mais do que uma homenagem aos antigos musicais, mais do que uma ode à Hollywood. La La Land é uma declaração de amor ao Cinema e à toda a sua engrenagem. E se é escapista, bem, foi assim que o cinema surgiu, com pessoas pagando um níquel pra se distrair cem anos atrás. Hoje pagamos mais caro, mas ainda queremos escapar um pouco da realidade. E por que não?

Texto atualizado em 18/02/2017.