#559 – Aquele sobre GoT (ou quase)

Agora?
É, agora.
Semanas depois do episódio final da penúltima temporada, venho falar sobre a série favorita da população mundial.
Tanto tempo depois por motivos de: amigos retardatários que ainda não tinham terminado de maratonar.
Pois bem. Agora vai.
Então, caso algum leitor desavisado tenha caído aqui e não queira spoilers de GoT, pare de ler agora ou cale-se para sempre.

É certo que eu deveria estar fazendo algo mais produtivo, como escrevendo minhas próprias histórias, mas o que eu posso dizer? É mais forte do que eu, me sinto naturalmente impelida a analisar e especular sobre essa série. Então, mea culpa feito, continuemos.

A sétima temporada passou longe de ser uma temporada que agradou toda a audiência. Bastante gente falou mal, por vários motivos, mas a principal reclamação era “que a série não era mais a mesma”. Inclusive críticos profissionais levaram a coisa pra esse lado. Do que eu li, um artigo sustentou melhor essa reclamação, dizendo que a série entrou numa encruzilhada, em que ela precisaria escolher um caminho, e nenhum parecia devidamente satisfatório para a audiência em geral. O dilema da série estaria em optar por ser:

– Uma Jornada do Herói clássica (indo do rito de passagem do herói até a recompensa);
– Uma trama subversiva (o que conquistou muitos espectadores, quando matava personagens importantes, parecendo quebrar paradigmas narrativos);
– Uma trama política (o que conquistou outros tantos espectadores, com as intrigas e corrupção dos Sete Reinos, que emulavam situações políticas universais).

De acordo com o texto, seja qual for o caminho escolhido, boa parte do público de GoT não ficará satisfeita com o desfecho.
E eu concordo que, considerando que o público da série é um público heterogêneo, que se interessou pela série por motivos diversos, a tarefa de juntar todos os fios de modo a agradar espectadores que privilegiam elementos diferentes da história, é um desafio gigante.
Mas eu não sou tão pessimista sobre isso, mesmo com a sétima temporada já tendo dividido um tanto das opiniões.

As filmagens da temporada final começam em outubro. A HBO já disse que vai gravar vários finais pra tentar, se não for possível evitar vazamentos, ao menos garantir que ninguém tenha certeza de qual será o final oficial.
Enquanto isso, já pipocam teorias, algumas vendidas como vazamentos.
Impossível não é. Muito antes de toda a polêmica durante a temporada de 2017, em outubro passado já haviam vazado toda a escaleta da sétima temporada.
Mas antes de falar dessas teorias, é preciso fazer algumas observações.

Aqui começa a análise do ponto de vista da escritora/roteirista:

– Questões de Gênero:
GoT é uma trama épica de fantasia. Todo gênero tem suas convenções. Uma história pode ser uma mistura de gêneros, mas sempre um é preponderante, e suas convenções prevalecem.
Características:
Nos Épicos de Fantasia, o principal conflito é BEM X MAL;
Normalmente é uma longa jornada com muitos obstáculos;
O BEM vence o MAL (mas nem sempre a vitória é definitiva… a ameaça pode nunca ser completamente derrotada)
Exemplos de Épicos de Fantasia: O Ciclo do Anel de Wagner, O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia, Star Wars, Harry Potter.

– Questões de Estrutura:
Quando se trata de séries, existem os arcos por temporada, e o arco total da história.
Embora várias séries comecem sem uma previsão do número geral de temporadas, do quanto a história pode render, no caso de GoT, por ser uma adaptação de amplo material literário, mesmo que inconcluso, o arco total da história já estava em grande parte desenhado. Isso significa que os Atos do arco total (I, II e III) serão mais delineados, menos fluidos. E cada Ato tem a sua função dentro da história. O Ato I contextualiza, o Ato II desenvolve, o Ato III amarra e conclui. E porque cada Ato tem uma função, cada Ato tem características próprias também.
No Ato I, no começo de uma história, você pode usar muitos artifícios.
No Ato II, no meio da história, você pode desorientar.
No Ato III, você precisa amarrar as pontas (de todos os arcos) e há menos espaço pra surpresas.

Estrutura em Camadas: Existem vários tipos de estrutura narrativa. Estrutura em gavetas, estrutura em árvore, etc. Eu diria que GoT tem uma estrutura em “camadas”, que se desenvolve a partir do despetalamento dessas camadas, que seriam as diferentes gerações das famílias, e das linhas sucessórias. Jon só pode se tornar Rei do Norte porque Eddard morreu, e depois Robb. Daenerys só pode se tornar Rainha dos Dragões e dos Dothraki porque Viserys morreu, e depois Drogo. As camadas camuflavam os protagonistas.

Lembrando que todo escritor, ao começar a escrever sua história, precisa saber – no mínimo – 3 coisas:
1) Quem são seus protagonistas;
2) Onde eles estão no começo da história;
3) Onde eles estão no final da história (esta parte pode mudar durante a escrita, mas no começo já existe um final, embora ele possa ser alterado dependendo de algumas circunstâncias).

– Questões de Personagem: Um criador não constrói um personagem por todo um caminho para transformá-lo em algo totalmente diferente no fim. Existe uma coerência interna que rege cada personagem, que produz identificação ou rejeição da audiência com ele, um DNA que ele carrega – ou deve carregar – até o fim.
Você não acostuma o público com personagens a longo prazo para que outros personagens, menos relevantes ou recém chegados, tenham maior espaço no desfecho. Você não tira o clímax do seu protagonista e entrega a um personagem secundário.
Outro ponto importante sobre personagens: Se você tem dois personagens muito parecidos, quase sempre é o caso de matar um deles.

– Questões de Desfecho: O melhor final é aquele que é coerente com a história e que também surpreende (no que for possível).

– Questões de Estratégias Narrativas/Recursos Narrativos: PISTAS – O famoso foreshadowing (planting and payoff). Dificilmente um roteirista planta uma informação que será irrelevante depois. Em GoT, os diálogos são circulares, o que um personagem diz num momento, retorna pra ele mais tarde.

– Questões de Inspiração: Um texto da New Yorker partiu do assunto do incesto para traçar paralelos entre GoT e o Ciclo do Anel, do compositor Richard Wagner. Tolkien teria se inspirado nas óperas para desenvolver seu Senhor dos Anéis e, talvez, Martin tivesse bebido dessa fonte também.
Em O Ciclo do Anel, há o incesto entre os irmãos gêmeos Siegmund e Sielinde, que gera um filho, Siegfried. Há também incesto entre tia e sobrinho, a Valquíria Brunhilde e Siegfried.
Que eu me lembre Martin nunca mencionou essa influência, mas ele se inspirou na época medieval. Qual a maior referência narrativa da época medieval? O fictício Rei Arthur e suas aventuras. Em algumas lendas arturianas, como em As Brumas de Avalon, Arthur comete incesto, sem saber, com a irmã Morgana, durante um ritual. Ela engravida de Mordred.
Em ambos os casos, há um período de afastamento entre os irmãos, que só depois de se apaixonarem/relacionarem se reconhecem. Em ambos os casos, há consequências trágicas por esse envolvimento.
No Ciclo do Anel, a família Walsung (família do “Lobo”), é amaldiçoada após a união dos gêmeos. Em As Brumas de Avalon, Arthur e Mordred lutam e se matam.
Parêntese: Em Star Wars, Luke e Leia são irmãos gêmeos separados no nascimento por proteção. Luke luta com seu pai Anakin/Darth Vader, que no final o salva e morre. Embora SW não seja uma influência direta para GoT, essa referência é importante para quando chegarmos na parte das teorias.

– Questões de Mensagem: A mensagem padrão do gênero Épico de Fantasia é que, apesar das perdas, os bons continuam lutando, o bem vence algumas batalhas, a paz reina por algum tempo, o mal ressurge, e o ciclo continua… A luta eterna BEM X MAL.

Bem, depois de todas essas observações, eu ia começar a falar sobre GoT e teorias/previsões para a última temporada. Mas isso vai ficar pro próximo post…

TO BE CONTINUED…

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#558

De vez em quando eu penso em vir aqui escrever alguma coisa, sobre como anda a vida em geral ou sobre algum acontecimento em particular, mas a verdade é que a minha capacidade de fazer coisas não está acompanhando a minha vontade de fazer coisas. Pra ser bem sincera, ela nunca acompanhou, o ponto é que agora a distância entre elas está maior.
Eu vinha me esforçando pra manter um certo ritmo, pra não desacelerar muito, mas acabei capitulando. Tem horas que a gente cansa de certas batalhas inglórias.
A minha vida foi sacudida por uma série de situações, no plano familiar, no plano do trabalho, questões sobre as quais eu não tenho qualquer controle, e eu estou tendo que me equilibrar em meio a tudo, da melhor maneira possível. Minha principal meta é não me estressar demais, não colocar a minha saúde na reta, ir levando.
No momento não tenho alternativa, então que a dose de sofrimento seja a menor.
Até acho que tenho ido bem na minha empreitada.
Mas as perdas são inevitáveis.
E me aborrece que as perdas sejam sempre maiores no que me é mais valioso.
Eu vinha numa fase confiante, porém agora estou numa fase de baixa energia.
Espero que melhore, que a confiança retorne, que me empurre para os meus planos, que não permita que me falte resiliência.
Enquanto isso eu tenho usado boa parte do meu (escasso) tempo livre vendo vídeos, colocando séries em dia, fazendo algumas leituras (embora bem menos do que eu gostaria). Estou sim, um pouco rendida a uma certa ociosidade nas raras ocasiões em que posso. Não me orgulho, mas também não me envergonho. Atualmente, é um dos poucos gestos de rebeldia ao meu alcance.
Enfim. Deixa a roda girar.

#557

36.
Acho que estou escrevendo só pra me lembrar.
Que não importa em que idade eu tenha parado, o relógio continua a girar.
Que apesar de alguns dias parecerem durar uma eternidade, é apenas um engodo.
Eles passam rápido, aos montes, eles correm em bandos.
Você pisca os olhos, e pronto – já deixou pra trás mais um pedaço seu.

***

Andei registrando algumas das minhas letras de música.
Esta vem bem a calhar:

Retalhos

Gavetas e armários
Um perfume no lençol
Uma carta entre dois livros
E pela janela o sol
O sol, o sol

Será que eu vou encontrar
O que um dia eu perdi?
Eu vivo a me procurar
Mas nunca me descobri
Será que entre tantos pedaços
Eu posso me sentir?

Essa colcha de retalhos
É quase um espelho meu
Um lado entre outros lados
Um beijo que se esqueceu
Um beijo, um beijo

#556

Depois de três episódios da sétima temporada de Game of Thrones, minhas apostas sobre o que vem por aí:

– No próximo episódio veremos o reencontro do Jon com o Theon, em que mais uma vez o Theon vai levar uns murros na cara pelos seus erros pregressos, como já revelaram alguns spoilers. Mas o fato de, ainda que equivocada e covardemente, ele estar sobrevivendo até aqui, me diz que ele ainda tem um papel importante a desempenhar no jogo dos tronos. Inclusive ideias bem malucas passaram pela minha cabeça sobre isso. Porque em tese Theon é um Greyjoy, mas vocês se lembram que ele foi praticamente criado em Winterfell, né? Em GoT, isso pode não significar nada, mas também pode significar muita coisa.

– Ainda sobre os Greyjoy, Yara também não é uma carta fora do baralho. Ela foi capturada, e considerando o naipe de seu tio, acho que ele vai violentá-la, torturá-la, mas também tenho a sensação de que ela é durona o bastante pra conseguir escapar de Porto Real, e quem sabe até dar o troco depois.

– A situação parece agora bem melhor pra Cersei do que pra Daenerys, mas se tem um ditado que vale em GoT, é que quem ri por último, ri melhor. Se estamos vendo a escalada de poder de Cersei, é porque ela vai perder no momento crucial. Fora que há as profecias, etc, etc… A dúvida é quando e como (minha torcida é pra Arya matar Jaime, e depois a Cersei disfarçada do irmão/amante dela). Tudo indica que sua queda fica pro ano que vem. Talvez esta temporada termine com ela no ápice, acreditando que derrotou todos os inimigos. Tudo bem que seria um pouco repetitivo porque a temporada anterior terminou com ela se coroando rainha, mas ela tinha perdido o último filho, então aquela vitória foi meio amarga. Talvez agora ela consiga capturar Dany, talvez até o último episódio seja o casamento dela com Euron. Mas, como sabemos, casamentos em GoT nunca são bons negócios.

– No mínimo um dos dragões vai morrer pela arma de Cersei ainda nesta temporada, sim ou com certeza?

– É claro que o Sam não vai passar aqueles papéis a limpo à toa. O arquimestre com certeza o está preparando pra alguma tarefa muito mais especial do que pode parecer. Quando ele perguntou ao Sam como ele tinha conseguido curar Sir Jorah e ele respondeu que apenas seguiu o que estava nos livros, bem, devem ter ensinamentos muito valiosos naquela papelada, que Sam vai aprender lendo e copiando. Quando o arquimestre pergunta se ele estava esperando um prêmio, e a tarefa parece um castigo, talvez seja porque, quando acabar a tarefa, Sam obtenha o prêmio desejado: o título de mestre.

– Se a Pedra do Dragão, o castelo Targaryen, está sobre uma montanha de vidro de dragão, talvez esse seja o cenário da Batalha Final com o Rei da Noite. Uma armadilha, um grupo de pessoas dispostas a se sacrificarem, um pouco de magia (Hello, Melisandre!), uma mega explosão e “Bum!”, adeus zumbis. (Não seria uma saída super original, dado o que já vimos com o fogovivo, mas não sei se veremos muitas saídas originais a partir de agora. Talvez a luminífera apareça, mas a batalha com o Rei da Noite vai ter que ser a maior de todas.)

– E por falar em zumbis, caminhantes brancos, whatever, por que Benjen Stark, apesar de morto, não virou mais um cavaleiro do exército do Rei da Noite? Eu tenho a impressão, desde as primeiras aparições dos caminhantes brancos, que nem todos eles são do lado negro da força. Vamos lembrar que eles foram criados pelo povo da floresta pra preservar aquele povo e sua magia da brutalidade dos homens? Posso estar viajando muito, mas eu não me surpreenderia se, além do exército de mortos-vivos do Rei da Noite houvesse um outro grupo gelado, mais do tipo do tio Ben.

– E o Bran, hein? Toda a jornada até se tornar o Corvo de Três Olhos… os poderes que ele tem (e que não sabemos até onde vão)… E a reação dele ao encontro com a Sansa? Considerando tudo que ele pode ver, e as coisas que ele disse pra ela, me passou a ideia que ele já sabe que em algum momento ela vai fazer alguma besteira muito grande. Pelos embates dela com Jon, pela proximidade dela com Mindinho, é muito provável que ela traia Jon de alguma forma num momento decisivo.

– Jon continua a ser o único líder que não quer ser rei, e que faz tudo ao contrário do que o aconselham a fazer. Isso deve significar alguma coisa.

– A senhora dos dragões está sofrendo muitas baixas, mas não vamos esquecer que ela ainda tem aliados fora de Westeros. Lembram do amante que ela deixou em Meereen? Por lá se faz comércio, e aposto que mais alguém deve ter uma frota de navios que possa cruzar o mar até Westeros pra socorrer uma rainha em tempos de necessidade…

Enfim, curiosa pra ver os próximos episódios…

#555

Apesar de todas as coisas que tenho pra fazer, resolvi vir aqui, falar de amenidades.
Bem, mais ou menos, né.
Gente, eu assisti ao remake de Dirty Dancing.
Duas horas de completa vergonha alheia.
Eu já tinha indícios de que era bem ruim, mas fui ver movida pela curiosidade, e aí você começa a sofrer praticamente já nos créditos iniciais, mas vai até o fim pra saber qual o limite para a falta de noção e descobrir que pode ser muito, muito elástico.
É muito ruim. MUITO ruim. É um erro completo.
Fico pensando na geração atual vendo aquilo e tentando entender por que tanta gente mais velha é apaixonada pelo filme. Porque se você assistir ao remake, você não vai ter a mais vaga ideia.
Bem, vamos começar pelo começo mesmo, literalmente.
Qual é o nome do filme? Dirty Dancing.
Que seria o quê? Uma “dança suja”. Em que sentido? No sentido de uma dança provocativa, ousada, sexy, digamos que vulgar pra época (a história se passa em 1963).
E o filme de 1987 começa como? Com imagens em câmera lenta da tal “dirty dancing”. Você vê as cenas iniciais e já mergulha no conceito do filme. Você vê aqueles corpos se tocando ao som de Be my baby, e já tem a promessa de que ali vai ter alguma coisa sexy. Não é só uma história de amor, é uma história de paixão. Guardem isso. E se não quiserem spoilers, desistam do texto agora.
Daí o remake, dita homenagem, começa como? Com imagens batidas de Nova York, até o cartaz (banal) de um show da Broadway chamado Dirty Dancing, a partir de onde a história começa a ser contada em flashback.
Isso é tão atraente, né? Convidativo. Dá tanta vontade de ver o filme. SQN.
Mas a gente já sabe que isso não é de graça, então a gente finge que não é uma opção tão ruim e segue em frente, ainda que nada embalados na vibe da história.
Daí começa a tradicional cena da família no carro, a caminho do hotel. E essa cena já é um presságio maior do desastre. No filme original, a cena do carro é toda narrada pela protagonista. Pelo que ela diz, e pelos gestos dentro do carro, você é contextualizado de que ela é uma garota inteligente, de que a irmã dela é uma garota vaidosa, de que ela e o pai tem uma relação especial.
Mas nessa filmagem de 2017, o filme (telefilme, na verdade) não começa com um voice over, porque 90% dos cursos de roteiro dizem que voice over é quase uma heresia no audiovisual, então a pessoa decide fazer um diálogo da família dentro do carro, que termina com eles cantando juntos (registrem esse fato).
Suponhamos que você nunca tenha ouvido falar do filme original. Talvez até aí você não esteja achando nada tão desastroso assim, apenas bem bobo e meio cafona. Mas se você conhece o filme, você percebe:
1 – Que nenhum personagem foi bem escalado. Nenhum ator/atriz ali está no nível do elenco original.
2 – Que o roteiro é sofrível. Na primeira cena falada você já sabe que vão aplainar o roteiro até ele parecer ter sido escrito por uma criança de 12 anos. Mas você respira fundo e continua.
E daí finalmente aparece o Johnny. Nesse ponto, meu querido, se você conhece e gosta do filme você já tem certeza de que o remake é uma tragédia.
Porque não tem como esses protagonistas darem conta. É apenas impossível.
Vamos voltar umas casas e lembrar do que eu falei lá em cima. Dirty Dancing é um filme sobre paixão. Mais precisamente um filme sobre uma adolescente nerd que se apaixona por um cara mais velho e muito sexy. De novo, vamos repetir: o filme é sobre paixão (por alguém, pela dança) e paixão é tudo sobre química.
A Abigail Breslin é uma querida, amada por todo mundo desde Pequena Miss Sunshine. E o problema não é ela não ser magra. O problema é que ela não tem sex appeal. Isso independe de peso. Não tem sequer um osso sexy nela, e além disso o figurino não ajudou em nada. Vamos concordar que a Jennifer Grey nunca foi padrão de beleza, exceto por ser magra. Mas ela tinha uma personalidade que a deixava sexy. Abigail tem uma personalidade fofa, e não consegue mudar essa frequência.
E esse Colt Prattes. Pra começar, já seria muito ingrato pra qualquer ator assumir esse papel do Patrick Swayze. O Patrick Swayze foi um dos atores mais bonitos e mais sexys da história de Hollywood. Qualquer pessoa que tenha visto Dirty Dancing (1987), Ghost (1990) e Caçadores de Emoção (1991) sabe do que eu estou falando. Ele era O cara. Ele dançava, compunha, cantava, atuava bastante bem. Ele era o que se pode chamar de powerhouse na época. Então, assim, é até um pouco de covardia fazer comparações, mas não dá pra evitar. Tenho dó do Colt, sinceramente. A distância é tanta… Vou aliviar um pouco a barra e dizer que ele até dança direitinho. Mas, gente… não dá. Ele também não combina com o personagem. Ele parece tão jovem quanto a Abigail. Mesmo dançando, ele não tem a sensualidade necessária pro Johnny, a malandragem. Ele parece apenas um garoto ligeiramente rebelde. Um dos grandes acertos do filme de 1987 era que Patrick era um homem, não um garoto. Ele era o ritual de transição da Baby pro mundo adulto. E, como um cara experiente, ele se encantava com a ingenuidade dela. Com Abigail e Colt definitivamente isso se perde.
Se pelo menos eles tivessem alguma química juntos… mas em nenhum momento esse casal parece realmente um casal apaixonado. Não tem faísca. Não tem clique. Não tem pegada.
Assim, este post já está imenso e eu ainda poderia falar de tantos equívocos desse remake, destrinchar cada um, da história principal e das histórias secundárias (talvez eu faça uma parte 2 dessa análise). Mas eu não quero passar a minha tarde inteira fazendo isso. Acho que já deu pra pegar a ideia.
Eu tinha que registrar minha revolta com esses remakes horrorosos que fazem e ainda chamam de homenagem. Não bastasse a porcaria do Footloose de 2011, cuja única coisa digna de nota é a ponta do Miles Teller, ainda inventam de zoar com Dirty Dancing? Ah, pelo amor de Deus. Não f***m com um dos meus filmes favoritos!
Passem longe desse remake e vejam o original. Ele sempre vai valer a pena.

#554

Esta semana começou com a triste notícia do falecimento do meu tio/padrinho.
Esta perda mexeu comigo.
Tem gente que me acha fria. Tenho a impressão que a minha família nuclear, especialmente, me acha dura, meio seca, talvez até indiferente.
Eles têm seus motivos pra pensar assim.
Eu não sou uma pessoa muito presente. Não gosto muito de telefonemas. E não demonstro muito minhas emoções pra eles. A não ser minha impaciência.
Eu também tenho meus motivos pra ser/agir assim.
Mas nada disso significa realmente que eu seja uma pedra de gelo, que nada me comova, ou que eu tenha perdido meu coração em alguma parte espinhosa do caminho.
É apenas sobre as partes de você que cada um conhece/vê; que você permite que conheçam/vejam.
É sobre chorar quando está sozinha, quando não tem ninguém vendo, ou chorar no ônibus, entre desconhecidos que não vão te fazer perguntas. Talvez os ônibus da cidade saibam mais de mim do que vários amigos.
Mas este texto não é pra falar de como eu ainda tenho um coração, esse texto é pra falar do meu padrinho, do meu tio José.
O meu tio foi uma das melhores referências que eu tive na vida. De tudo.
Ele é tipo uma unanimidade na família.
Meu tio cumpriu todos os seus papéis da melhor maneira possível: como filho, pai, marido, irmão, tio, profissional… tudo.
Com uma origem pobre, começou a trabalhar muito cedo. Mesmo sem muito estudo, aprendeu a ser vendedor, se tornou um ótimo representante comercial e construiu sua vida de uma maneira irrepreensível. Se educou, aprendeu a se comportar com uma postura sempre correta, transmitia credibilidade. Meu tio construiu sua imagem como construiu sua vida. Com solidez. Estava sempre alinhado, penteado, manteve praticamente o mesmo peso durante toda a vida. Sabia como poucos da importância da imagem pessoal. Era sério, às vezes até formal. Mas também era carinhoso e tinha um lado bem humorado, gostava de uma cervejinha de vez em quando. Manteve um noivado durante anos com a minha tia, e mesmo trabalhando viajando de cidade em cidade, voltou e cumpriu o compromisso, se casou com ela e viveram juntos até ela falecer. Até pouco antes de começarem a ter problemas de saúde, eles iam para os bailes da terceira idade para dançar. Um casal elegante e simpático. Meu tio construiu uma casa grande, do jeito que ele sonhava. Uma casa bonita, com tudo bem arrumado, que tinha até umas jabuticabeiras na parte dos fundos. Ele deu aos três filhos a melhor educação, tanto aquela que vem de dentro de casa, quanto a educação de bons colégios. Meu tio nunca foi rico, mas conseguiu ter uma vida confortável e segura, à custa de muito trabalho, trabalho honesto. Meu tio ajudou outras pessoas da família em momentos de necessidade. Meu tio e minha tia assumiram os cuidados do meu avô praticamente até o fim. Meu tio, sabendo que eu adorava desenhar, sempre aparecia com um punhado de folhas pra eu rabiscar. Quase sempre quando nos visitava, levava um bolo (ou doces) e um punhado de folhas pra mim. A jóia mais valiosa que eu tenho é uma pulseira que meu tio e minha tia me deram quando fiz quinze anos. Meu tio sempre deixou claro como se importava comigo, apesar da distância geográfica que existia entre a gente. Ele sempre acompanhava a nossa vida, mesmo de longe. Ele ficava feliz de saber das minhas notas, de como eu me destacava nas coisas, se orgulhava das minhas pequenas conquistas. Meu tio sempre tinha um “Oi, querida, tudo bem?” pronto pra mim. E não era um “querida” protocolar, era um “querida” de querida mesmo. Era assim que ele fazia eu me sentir: uma pessoa muito querida. Meu tio me ligava em todo aniversário, ele nunca esquecia. Meu tio ligava quando ele via pela TV alguma coisa que aconteceu na cidade pra saber se a gente estava bem, se eu tinha chegado em casa direitinho, isso mesmo depois de já adulta. Meu tio ficou muito contente quando soube que fui à Itália e ficou encantado com o terço que eu trouxe pra ele do Vaticano (porque ele era muito religioso), que só consegui entregar muito tempo depois. Meu tio ficava feliz em me ver, e das últimas vezes que falei com ele por telefone, ele disse que tinha gostado muito da visita que fizemos no ano passado. Durante essa visita, mesmo já com sérias dificuldades pra se locomover, meu tio saiu com a gente pra uma volta na praça e pra almoçar. Meu tio era essa pessoa.
Talvez ele tivesse algum defeito. Mas, se tinha, eu nunca soube.
Tudo que eu sei do meu tio tem a ver com integridade, caráter, decência, bondade.
Eu só tenho boas lembranças dele. Nenhuma mácula, nenhuma mágoa.
Meu tio foi o maior exemplo masculino da minha vida, um enorme exemplo de ser humano.
Acho que ele não sabia o quanto eu o admirava. Eu acho que nunca disse isso assim, com essas palavras.
Mas é isso, meu tio é uma das poucas pessoas que eu consegui admirar até hoje.
Meu tio, que foi capaz de se construir numa pessoa assim, de se comprometer e de concretizar uma vida tão exemplar.
Ele se foi, e se o que tem depois da passagem reflete o desejo de cada um, acho que ele está de novo junto da minha tia. Com toda a certeza está num bom lugar.
Descanse em paz, tio. Vou sentir sua falta. Foi uma honra ser sua afilhada.

#553

Este post é um pouco sobre nada e um pouco sobre tudo.

Ontem fez seis meses que meu pai morreu.

Ontem também foi aniversário de um grande amigo, mas eu estava com zero vontade de sair da toca.

Uma amiga da família esteve aqui durante o final de semana pra ajudar a dar uma geral na casa.

Na próxima quarta-feira vamos saber o dia da operação da minha mãe.

Na próxima sexta-feira eu tenho outra consulta marcada.

Daqui a alguns dias eu completo 36.

Às vezes eu sinto falta de conversar, mas esta frase não deve ser entendida genericamente.

Eu queria aprender a meditar.

#552

Pra variar, a política nacional continua se desenrolando como uma novela de mau gosto.
Daí que prefiro não reivindicar meu direito de falar sobre ela, o deixo de bom grado pra quem ainda tem estômago, ou o que quer que seja, pra remoer o assunto.
Hoje eu vou falar de outra coisa, por conta de uma história que ouvi.
Já tem algum tempo que eu li uma matéria sobre goys.
Se por acaso algum dos meus leitores não sabe o que são goys (não confundir com o termo usado para designar os não judeus!), são caras que transam com outros caras, mas não se consideram gays nem tampouco bissexuais, se consideram heteros.
Pois é, eu sei que é meio difícil entender essa subversão da lógica, porém existem cérebros capazes de fazer esse tipo de acrobacia mental. (se você ainda se surpreende com a capacidade de certas criaturas de realizarem acrobacias mentais, eu tenho me surpreendido cada vez menos.)
Há muito tempo eu percebi que a gente cria uma lenda íntima. Toda pessoa inventa uma história pra si mesma, sobre quem é e sobre a sua vida, pra ficar em paz com a sua consciência. Pra ficar mais fácil seguir seu caminho. Nessa história você pode ser a vítima, pode ser o esperto, pode ser qualquer coisa que te deixe continuar sua existência confortavelmente, sem carregar um incômodo desgastante pelas coisas que fez/faz e que você próprio recrimina por qualquer motivo.
É um recurso bem natural e humano. Eu diria até que é um colete salva-vidas.
Então tem uma parte minha que tenta não ser uma juíza severa demais.
Mas eu julgo. É inevitável.
Eu não julgo o cara transar com outro. Ou com uma árvore. Não tô nem aí pra isso.
E nem tô aqui pra tentar colocar regras no corpo ou na vida sexual de ninguém, ou pra tirar ninguém do armário à força.
É de conhecimento geral que não é simples pra muita gente se assumir. Ainda existe preconceito, nem todo mundo está preparado pra lidar com os obstáculos.
Mas neste caso específico, mais do que uma insegurança individual, existe um machismo tão forte, tão calcificado, que não tem como não causar indignação.
Porque na filosofia desses caras, mulher nasceu pra ser feita de otária.
O fator comum entre eles, além do desejo sexual por outros homens, é que eles têm relacionamentos com mulheres e escondem esse “detalhe” delas.
Eles namoram, ficam noivos, casam com elas. Tudo bem protocolar. Tudo bem tradição, família e propriedade. Tudo bem patriarcal. Com essa “pequena omissão” mantendo tudo no lugar.
Vários caras, num acordo de irmãos (mais um exemplo do famoso corporativismo masculino), enganando suas companheiras.
Usando as mulheres pra afirmar que fazem parte de um modelo de sexualidade, mais do que isso, de um modelo social conservador que os privilegia.
Porque trata-se de manutenção de privilégios também. O cara não quer perder os privilégios do “homem hetero tradicional”.
E se pra isso ele precisa ter uma mulher pra ostentar (como qualquer outro objeto), que seja, não é um preço tão alto assim – pra ele.
Ah, mas esses caras gostam de mulher. Eles curtem transar com mulheres.
Pode ser.
Pode ser que o cara seja polivalente e se sinta tão satisfeito transando com uma mulher quanto com um homem. Sendo ativo ou passivo.
Mas permanece a questão. A mulher é a parte que não sabe o que está rolando.
Entre os homens, existe a cumplicidade. Entre homem e mulher, a falta dela.
E sinceramente eu fico até na dúvida se esses caras realmente curtem transar com mulheres. Ou se eles gostam é da sensação de poder, de esperteza, de fazê-las acreditarem que eles são super “machos”, machos alfa. Da ideia que eles cultivam que, não importa o que eles façam com seus iguais entre quatro paredes, eles ainda mandam. Que seus paus são superpoderosos. É a derradeira glorificação do pau.
Ah, mas eles não fazem isso o tempo inteiro. Só de vez em quando. Só pra variar. É só uma brincadeira. É só físico, não tem romance, não rola sentimento.
Olha, então, se não tem nada de mais, tudo bem se as mulheres também tiverem seus “segredinhos”, né. Tudo bem se elas também estiverem, sei lá, transando por aí eventualmente com outras pessoas sem seus companheiros saberem. Só por esporte.
Ah não? Aí não vale? Só vale pra um lado? Por qual motivo mesmo? Quem definiu isso? Com base em quê?
Volto a repetir. Eu não tô nem aí pra quem está transando com quem. Se é sado-maso, poliamor, whatever.
A questão maior é que tem uma leva de caras, sejam heteros, gays ou bis, que querem liberdade sexual só pra eles. É o pensamento oportunista, de querer só levar vantagem.
Pra mim um goy é tão sacana quanto o cara que trai a mulher com outra. Se quer sair por aí pegando quem quiser, combina com a outra parte um relacionamento aberto. Estamos em 2017, praticamente todo tipo de arranjo é possível.
Mas agir pelas costas é deslealdade. É propaganda enganosa. O nome disso é manipulação emocional.
Porque a outra parte não tem a visão completa do relacionamento. E vai agir baseada numa imagem irreal desse relacionamento, do parceiro e talvez dela mesma. E sabe-se lá que desdobramentos isso pode ter.
O problema básico disso tudo não é quem tá transando com quem, de que gênero, mas sim que uma das partes, na maioria das vezes a mulher, não tem escolha. Porque esse é o objetivo perverso da omissão: eliminar o direito de escolha dela, de decidir se permanece ou não junto de alguém que quer estar com outras pessoas.
O problema é esse ranço machista que contamina tudo, esse maldito machismo institucionalizado, que não permite que as pessoas tenham relacionamentos honestos.
Eu fico sabendo dessas coisas e penso como é quase impossível ter um relacionamento homem e mulher equilibrado, sincero, saudável. E lamento não sentir atração por mulheres. Acho que seria tão mais fácil e gratificante ter um relacionamento lésbico. Uma pena que eu seja tão hetero. E lembro de Cazuza, como ele faz falta.

“Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
lhes dê grandeza e um pouco de coragem”

(Blues da Piedade – Cazuza)

#551

Eu ando com vontade de falar de um tanto de coisas, mas tenho estado tão ocupada que realmente não tem dado tempo nem de organizar os pensamentos.
Então deixem eu aproveitar essa rara oportunidade.
Este ano tem sido um turbilhão. Sem exagero.
Acabamos de entrar na segunda parte dele, e o primeiro semestre pra mim foi assim: abri uma empresa, meu pai morreu, trabalhei em pelo menos meia dúzia de projetos diferentes, escrevi um roteiro de longa novo, entreguei TCC (e tirei 10!), arrumei uma dor crônica que até agora está sem diagnóstico fechado, minha mãe foi diagnosticada com aquela doença com “C”, articulei um projeto grande que demandou burocracias e pré-contratos.
Tudo isso em seis meses.
E eu até pensei que eu fosse respirar um pouco a partir de agora, mas fato é que nesta primeira semana do segundo semestre eu já fiz uma inscrição num evento importante.
E eu nem levei em consideração o meu trabalho oficial, aquele em que eu passo a maior parte da minha semana e que paga as minhas contas. Ele também tem demandado bastante de mim, especialmente no quesito paciência. Por isso eu prefiro nem falar muito dele. O que não tem remédio… (por enquanto.)
Mas, voltando à minha vida particular e empreendedora, tenho caminhado por territórios desconhecidos e que me dão, sim, um pouco de medo.
Ah, também tem a casa, né. A casa em que agora tenho morado sozinha. Eu estava acostumada ao papel mais masculino (mais machista) da vida doméstica: pagar contas. Agora eu também estou tendo que me virar com as atividades prosaicas que eu só fazia ocasionalmente: cozinhar, lavar, passar.
E não é que eu seja uma negação nessas coisas, porém sou m.u.i.t.o. l.e.n.t.a.
Então estou me equilibrando como posso, entre todas as tarefas, preocupações, projetos, mudanças.
Tem sido extremamente cansativo, mas ao mesmo tempo, estranhamente, parece estar me deixando mais corajosa (ou camicase, sei lá). Imagino que a sensação seja semelhante à de um boxeador que está levando um soco atrás do outro, mas que se recusa a entregar a luta, não quer entregar os pontos e ser nocauteado. Metaforicamente estou me sentindo meio Rocky Balboa. (até ouvi a musiquinha agora na minha cabeça.)
Outro dia estava conversando com meu, digamos, mentor, e ele me falou sobre essas fases intensas, quando você é meio que varrido por forças além da sua compreensão.
Eu disse mentor, né? Essa é uma outra coisa sobre a qual eu queria comentar. Eu sempre quis ter um. Só que a minha vontade era diretamente proporcional à minha desconfiança por pessoas que em tese poderiam cumprir esse papel. Eu acredito muito em exemplos, mas sou também muito exigente. Um mentor tem que reunir uma variedade de competências muito ampla. Então eu nunca tinha conseguido ter esse link com ninguém.
Agora acho que consegui. Vejam bem, esse link não tem nada de romântico. É uma questão de admiração mesmo. De reconhecer em alguém um modelo (pessoal e profissional), qualidades que eu quero desenvolver. E essa pessoa tem se mostrado muito generosa comigo. Então eu ouso dizer que, agora sim, eu encontrei um mentor real, com quem eu posso conversar eventualmente sobre projetos e sobre a vida. (Nada de Mestre dos Magos.)
E, apesar de todas as dificuldades, de todo o cansaço, eu olho pra frente e vejo possibilidades.
Eu sei que essa não é vibe reinante no momento, aqui e mundo afora, e que a gente precisa fazer um certo exercício de abstração muitas vezes. Mas é o que eu vejo.
Outro dia alguém falou que com crise ou sem crise, tem sempre gente metendo a cara e fazendo as coisas. E o meu ponto é justamente esse. Você pode ser a pessoa que, com crise ou sem crise, só reclama; ou pode ser a pessoa que, com crise ou sem crise, faz alguma coisa.
Pode esperar que façam algo por você ou pode fazer algo por si mesmo (e/ou pelos outros).
Porque, adivinha, os agentes de mudança são as pessoas.
E é por isso que eu me sentia mal durante a vida quando eu queria ter coragem e as pessoas à minha volta só queriam que eu tivesse cuidado. Porque a gente, especialmente quem não nasceu com grana, é criado pra ter tanto medo. E o medo tem seu lado positivo, o cuidado também, mas tem horas que você precisa é de coragem.
Quantas vezes já disseram que o mundo estava à beira do fim, e ele não acabou? Quantas fases tenebrosas já aconteceram e estamos aí, resistindo? Na real a história da humanidade é uma história de calamidades com uns interstícios luminosos no meio.
E eu não sou a Mãe Dinah, mas acho que ainda não é desta vez que o mundo acaba, não.
Pelo menos eu espero que não seja. Porque o segundo semestre tá aí, e eu ainda tenho muita coisa pra fazer. Inclusive mais um aniversário. (36. Digo apenas: véia.)

#550

Este post era pra ter sido publicado ontem, e apesar de hoje ser um outro dia, acho que vale a pena postar assim mesmo.

Hoje eu estou desde cedo com músicas na cabeça.
Músicas fofas, daquelas que dão vontade de sair cantando.
Às vezes eu sinto muita vontade de cantar, e uma das coisas que me aborrece no trabalho burocrático é não poder fazer isso.
Você está lá, com a música berrando dentro da sua cabeça, mas não pode verbalizar, porque está fazendo um relatório sério e as pessoas à sua volta também estão fazendo seus relatórios sérios, e tudo é muito ~sério~.
E eu só queria poder cantar, com a minha voz cheia de limitações e imperfeições, como se não houvesse amanhã.
Porque na real eu estou de saco cheio dessa vibe negativa, dessa areia movediça em que a gente anda se debatendo, como se só existisse coisa ruim no mundo.
É, a gente está numa fase bem complicada, mas não dá pra viver como um concentrador permanente de negatividade, uma bateria viva de críticas, reclamações, revoltas, rancores e suas variantes.
A gente precisa saber parar. E respirar. E ouvir uma música tão fofa que pode até ser cafona, ainda mais em tempos como esses em que qualquer coisa que não seja ácida é cafona. Ver comédia e não apenas drama. Fazer uma comida gostosa, alegre, aconchegante, deixar a dieta um pouco de lado. Parar de problematizar tudo.
Assim, eu não quero salvar ninguém. Eu mal sou capaz de salvar a mim mesma a cada dia.
Tenho os meus problemas, minhas preocupações, minhas contas pra pagar, meus dilemas existenciais.
Mas, na boa, não quero virar uma mala sem alça carregada de amargura.
Não quero enfiar a cabeça na terra feito um avestruz, mas também não quero viver de lixo e carniça como os urubus.
Eu não quero só a realidade crua e às vezes cruel; quero a fantasia, aquelas histórias em que a gente pode nem acreditar, mas que confortam a alma. As músicas que falam de recomeços, de tentar outra vez, de ir em frente.
Às vezes parece que estamos numa noite eterna.
Mas as luzes estão por aí. Elas sempre estão.